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Na 'Ucrânia brasileira', guerra domina conversas e orações

Estima-se que cerca de 600 mil descendentes de ucranianos vivam no Brasil, sendo 80% deles no Paraná

Rastro101
Com informações do site O Tempo

07/03/2022 por Redação

Divulgação/O TempoDivulgação/O TempoSão 11,5 mil quilômetros de distância até Kiev, mas a guerra na Ucrânia foi sentida de um modo particular numa cidade do interior paranaense. O conflito teve um impacto muito grande na comunidade, as famílias estão sofrendo como se [os atingidos] fossem pessoas daqui, diz Leopoldo Volanin, 51, diretor de uma escola na zona rural de Prudentópolis. Na volta do recesso do Carnaval, já depois da invasão militar por Moscou, a instituição em que ele trabalha inseriu no currículo aulas sobre a história e as relações geopolíticas entre Rússia e Ucrânia.

Os 480 estudantes do Colégio Estadual Padre José Orestes Preima acompanham as notícias do front também pelas redes sociais. Se meus tataravós não tivessem vindo da Ucrânia, nós hoje estaríamos no meio da guerra, diz Helen Elisa Petel, 15, da quarta geração de descendentes de ucranianos no Brasil.

Prudentópolis recebeu o apelido de Ucrânia brasileira porque 75% da população, de 52 mil habitantes, tem ascendência no país do Leste Europeu. A identificação fez com que o prefeito, Osnei Stadler (União Brasil), colocasse o município à disposição para receber eventuais refugiados - o Itamaraty oficializou na quinta (3) o protocolo para a emissão de vistos humanitários.

Vai ser um enriquecimento para todos nós, afirma o professor Volanin sobre a decisão do Executivo, dizendo que ele também está de portas abertas para receber eventuais estudantes que fugirem para o Brasil. A escola que ele dirige fica na colônia Esperança, a 15 quilômetros do centro, no meio de uma estrada de chão batido que corta bosques e lavouras de soja, milho, feijão e tabaco.

Ao longo da Linha Esperança moram cerca de cem famílias, quase todas formadas por descendentes do país do Leste Europeu. Uma vez por semana, os alunos têm aula de língua ucraniana, e motivos que remetem à cultura de lá, como pêssankas (ovos pintados à mão, ofertados para proteger do mal e desejar bons votos) e figuras com trajes típicos decoram os muros. As mangas dos uniformes são decoradas de azul e amarelo, cores da bandeira.

Um letreiro na entrada do colégio exibe a expressão bem-vindo em cirílico, e em um painel no corredor principal os alunos escreveram Acabem com a guerra e Queremos paz na língua ucraniana.

Estima-se que cerca de 600 mil descendentes de ucranianos vivam no Brasil, sendo 80% deles no Paraná. Mais de 130 anos após as primeiras ondas migratórias, que remetem a 1896, a cultura eslava ainda predomina na região de Prudentópolis. Quando chegamos, sentimos que estávamos na nossa terra, com as pessoas falando ucraniano. Claro que é uma situação diferente da atual, porque se passaram mais de cem anos [desde o começo da imigração], mas eles estão guardando nossa cultura, inclusive aspectos que lá já passaram, diz Vitalii Arshulik, 32.

Ele é missionário da Primeira Igreja Batista e em 2017 trocou a cidade de Lustsk, perto da fronteira com a Belarus, pelo interior do Paraná. Com a vida estabelecida, conta que avisou parentes e amigos que sua casa está de portas abertas para receber refugiados -ainda que saiba que as chances de isso acontecer são pequenas por enquanto.

Entre meus amigos e conhecidos, ninguém quer vir. Preferem fugir para países próximos, como Polônia, Moldova, Hungria e Alemanha. O preço da passagem para o Brasil é muito alto, diz. Seu irmão Mikhailo, dois cunhados e um primo já foram convocados para se alistar no Exército, e o restante da família não quer abandoná-los.

Neto de ucranianos, o professor da rede municipal André Schparyk, 39, tem primos espalhados pelo país europeu e também se diz disposto a abrigar eventuais refugiados. A gente é brasileiro, nascido aqui, mas sente bastante. É nossa família.

Para ir além das intenções, entidades civis e religiosas instituíram junto com a administração municipal na última quinta (3) uma comissão encarregada de conceber um plano concreto de ajuda humanitária aos refugiados, batizado de Humanitas Brasil Ucrânia. O programa prevê a criação de um cadastro de pessoas e empresas dispostas a contribuir financeiramente ou a acolher imigrantes.

Existe a expectativa acerca da possível vinda de refugiados, e os trabalhos da comissão serão direcionados para a preparação da organização para esse acolhimento, informou a prefeitura, que alertou à população que toda ajuda se dê por meio da comissão, para prevenir ação de golpistas.

Enquanto isso, a invasão russa ecoa pelos aparelhos de rádio e TV na colônia de Nova Galícia, a oito quilômetros do centro de Prudentópolis. No povoado de cerca de 60 casas, habitadas principalmente por idosos, não há internet nem sinal de celular.

Em uma modesta casa de madeira pintada de verde e azul, numa rua de saibro entre campos de madeira reflorestada, a aposentada Otilia Maria Koçouski, 78, conta ser bisneta dos ucranianos Anastasia e Basilio. Toda noite coloco o rádio ao lado da cama, pego o terço e rezo pela paz, diz. Às vezes, ela tira o pó da gaita e toca músicas ucranianas que aprendeu na infância para alegrar o dia.

A vida ali parece ter parado no tempo. Na cozinha, o fogão é a lenha, e as paredes da sala estão decoradas com ícones religiosos e rushneks, panos bordados que enfeitam os quadros, traços marcantes da cultura ucraniana.
As cores bem vivas são uma tradição dos imigrantes eslavos no Brasil, assim como paredes repletas de imagens de santos, afirma o arquiteto Fábio Domingos. Ainda há casas típicas preservadas nas áreas rurais, mas à medida que as gerações mais antigas desaparecem os imóveis dão lugar a construções modernas.

O aposentado Ambrosio Martinik, 78, neto de ucranianos, mora na mesma rua de Otilia, em frente à pequena Igreja de São Miguel -um dos 43 templos do município em estilo bizantino, nos quais missas são celebradas em ucraniano e português. Como o padre aparece uma vez por mês, é a família dele que cuida do espaço. Em toda parte rezam [pela paz], aqui também.

A invasão russa despertou um sentimento de união na comunidade. Nos últimos dias, integrantes do grupo folclórico Vesselka e da Irmandade dos Cossacos têm realizados atos no local. A Rússia quer negar a cultura, a religião e as ricas tradições dos ucranianos, disse Meron Mazur, bispo da Eparquia da Imaculada Conceição de Prudentópolis, numa mensagem aos fiéis. (Folhapress)

 

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